Palavras

Tudo tem ar de ficção

Ierê Ferreira


Foto: Ierê Ferreira
 
                                                                                 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Há uma sequela na sociedade
 Desde que a primeira imagem
 Surgiu na televisão

 Um incêndio no Joelma
 Irmãos coragem pra matar
 John Kennedy, John Lennon,
 João do Ceará
 
 
Foto: Ierê Ferreira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                                                                               
Tudo tem ar de ficção!
Há uma sequela na sociedade
E a favela morre e mata sem perdão
E cresce nas encostas, os barracos
Que matam florestas
E sangram a fauna
Empurrados pela minoria forte
Que acha que a morte não desse de lá
 
 
Foto: Ierê Ferreira
 
 
 
                                                                                                 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Há uma sociedade
Que não acredita no caso verdade
 Nem liga para o linha direta
 Pois paga propina e bate no peito
Com a certeza que isso não é um desvio de conduta
E nem um defeito filho da puta.

E na cidade onde se ganha o pão
Também se como a carne
E suja-se o chão
Onde dorme o que seria o futuro da nação.  


     
Foto: Ierê Ferreira
                                                                                 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
E na telinha tudo parece ficção
Para a sociedade sequelada
Que cria monstros
E acha que não fez nada.  
 
Foto: Ierê Ferreira

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
Desfile Principal

Autor: Ierê Ferreira

Eu ainda vejo as horas
No relógio da Central
Da Gambôa ao Santo Cristo
O samba na Pedra do Sal

Negro, Jongo, Congo e Candomblé
Capoeira tem axé!
No desfile principal!
Larga essa arma desce do morro
O samba te pede socorro
Vem erguer essa moral.

História da tia Ciata e João da Baiana
Beirando a estação Central do Brasil
O trem leva pra mais além!
Passa no vai e vem!
E traz outra informação!

Negro, acho que a poluição
Tirou da tua visão a história dessa nação.
Tu construíste a melodia deste samba!
Tu costuraste a fantasia deste bamba!
Tu inventaste a bateria deste samba!
E a poesia que a este bamba inspirou!

Hoje o censo te pergunta…
Tu és negro ou não é?
Larga essa arma, desce o morro
O samba te pede bom senso
Vem mostrar a tua fé.

Larga essa arma e desce o morro
O samba te pede socorro
Vem mostrar a tua fé.

MANIFESTO DA FUNDAÇÃO DA ESCOLA DE SAMBA QUILOMBO


Na época, o recém-formado estudante de Letras, João Baptista Vargens, após um dos inúmeros encontros promovidos por Candeia para articulação da escola em dezembro de 1975, escreveu um manifesto de fundação, que exprimia de forma incisiva os propósitos e ideais da nova escola que nascia:

“Estou chegando…

Venho com fé.

Respeito mitos e tradições.

Trago um canto negro.

Busco a liberdade. Não admito moldes.

As forças contrárias são muitas.

Não faz mal…Meus pés estão no chão.

Tenho certeza da vitória.

Minhas portas estão abertas. Entre com cuidado.

Aqui, todos podem colaborar. Ninguém pode imperar.

Teorias, deixo de lado.

Dou vazão à riqueza de um mundo ideal.

A sabedoria é meu sustentáculo,

O amor é meu princípio,

A imaginação é minha bandeira.

Não sou radical.

Pretendo, apenas, salvaguardar o que resta de uma cultura.

Gritarei bem alto desafiando um sistema que cala vozes importantes

E permite que outras totalmente alheias falem quando bem entendem.

Sou franco-atirador. Não almejo glórias.

Faço questão de não virar academia. Tampouco palácio.

Não atribua a meu nome o desgastado sufixo -ão.

Nada de forjadas e malfeitas especulações literárias.

Deixo os complexos temas à observação dos verdadeiros intelectuais.

Eu sou povo.

Basta de complicações. Extraio o belo das coisas simples que me seduzem.

Quero sair pelas ruas dos subúrbios com minhas baianas rendadas sambando sem parar.

Com minha comissão de frente digna de respeito.

Intimamente ligado às minhas origens.

Artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamentos culturais, profissionais:

Não me incomodem, por favor.

Sintetizo um mundo mágico.

Estou chegando…”



O samba te pede socorro
Vem mostrar a tua fé

Uma análise sobre o cantar da liberdade religiosa na letra de Ierê Ferreira

Érika do Nascimento Pinheiro[1]

O cenário é o Rio de Janeiro num tempo de chumbo, de ditadura militar. Em tempos de conflitos sociais, culturais, políticos e do milagre brasileiro, fora gravado, em 1966, o LP Os afro-sambas, por Vinicius de Moraes e Baden Powell acompanhados pelo Quarteto em Cy. Gravaram canções como “Canto de Iemanjá”, “Canto de Xangô” e “Lamento de Exu”. Consagrava-se, desta forma, a tendência, não majoritária, de reunir nas letras de samba a religiosidade afrobrasileira e a crítica social. A chamada sétima arte, o cinema, também vivenciava, na década de 1960, a reunião entre o apelo aos orixás, a denúncia social e a visibilidade da produção cultural popular do nordestino no filme O pagador de promessas, de Anselmo Duarte.[2]

Foto: Ierê Ferreira

A década de 1960 é significativa para o samba e a produção cultural e religiosa do Brasil. Neste momento toma fôlego tendência inaugurada na década de 1910, quando houve uma das primeiras referências ao feitiço no samba Pelotelefone, de Donga, produzido nas reuniões na casa da mãe-de-santo Tia Ciata. . A partir desse período, o candomblé e tudo aquilo que o compõe como os orixás, jogo de búzios, ervas, rezas entre outros será cantado e cada vez mais popularizado pelo samba. Uma união que se projeta aos dias atuais, como poderemos observar nas composições de Ierê Ferreira, músico nascido no emblemático ano de 1966 e que se insere em importância e como referência na tendência consagrada na década de 1960 pelo Os afro-sambas.

Foto: Ierê Ferreira

Composições não somente preocupadas com a fruição de sentimentos e emoções, como também engajados na luta social do negro e que vê no samba um papel pedagógico visando transmitir para as gerações futuras a história dos afrodescendentes. Em Desfile principal, de Ierê Ferreira, fica clara a função social do samba associada a popularização das práticas religiosas dos afrodescendentes:

“Negro, Jongo, Congo, e Candomblé
Capoeira tem axé!
No desfile principal!
Larga essa arma desce do morro
O samba te pede socorro
Vem erguer essa moral.”


Foto: Ierê Ferreira

Não se escreve o que se quer, iniciava Pierre Bourdieu uma análise sobre Gustave Flaubert.[3] Refletindo sobre o trecho acima, podemos inferir que para além de uma perspectiva estética há uma  crítica social que ultrapassa o autor do samba e se plasma diretamente em uma camada social que teve sua história encoberta por muito tempo e que somente hoje, por imposição da Lei N° 10639/2003, vagarosamente alcança os bancos escolares e a sociedade de uma forma abrangente. Segundo Bourdieu, a produção artística possui seu quinhão de originalidade, mas esta está inserida nas discussões sociais, quando devemos analisar sempre o texto e o contexto.[4] Podemos observar há uma circularidade e diferentes apropriações das produções culturais e da estética. Na letra Se a água pudesse falar, Ierê Ferreira faz uma leitura da importância da água como um depositário da história da exclusão do negro. Água que no começo da República foi fruto de luta simbólica pelo poder. Quando aqueles que eram pegos molhados nas comemorações cívicas do Dois de Julho, na Bahia, eram presos assim como a Lavagem do Bonfim, quando também se festejava Oxalá nas ruas da cidade e na colina sagrada, fora proibida para atender ao projeto modernizador republicano.[5] A importância simbólica da água sofreu, mais uma vez, uma releitura em um novo contexto, o que mostra a dinâmica cultural.

Foto: Ierê Ferreira

 
                                                                                        “Se a água de cascata pudesse falar
                                                                                                              Pediria ao luar
                                                                                   Que mandasse uma mensagem a OXALÁ
                                                                                                          Que acabe a guerra
                                                                                                  E que o mundo seja de amor
                                                                                     E os caminhos sejam um jardim em flor”

Por que estudar o samba? Para além de seus valores estéticos, fica clara a sua importância como um meio de se colocar questões profundas da sociedade como sobre sua formação identitária. “O samba te pede socorro / Vem mostrar tuafé, de Ierê Ferreira, é uma resposta a esta questão, pois canta a liberdade e o direito à memória ancestral e à preservação cultural e religiosa dos afro-descendentes como um direito inerente ao cidadão. Através do samba, grupos sociais se organizam, constroem e reconstroem identidades e dão sentidos as suas vidas, além de construir as pessoas e ser construído por elas. Nas letras de Ierê Ferreira, há um verdadeiro diálogo entre o artista e a cidade, uma circularidade de elementos culturais quando ambos, sem limites precisos, cidade e artista, se transformam e se informam mutuamente. Neste sentido, o samba é entendido como um patrimônio imaterial por ter a capacidade de evocar o passado e estabelecer uma ligação entre este, o presente e o futuro e garantir a nossa perenidade na letra do artista.


[1] Mestre em História Social pela UERJ/FFP e especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ.

[2] PRANDI, Reginaldo. Segredos guardados: orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 204.

[3] BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997, p. 17.

[4] Idem, PP. 75-77.

[5] PINHEIRO, Érika. Dissertação de mestrado. Ano defesa 2008. UERJ/FFP.


17 Comentários (+add yours?)

  1. O samba te pede socorro Vem mostrar a tua fé « Samba Identidade Nossa
    ago 17, 2010 @ 18:55:42

  2. Renata Penajoia
    ago 18, 2010 @ 18:05:58

    União perfeita, samba e religiosidade.
    Parabéns

    Resposta

  3. Érika
    ago 20, 2010 @ 19:12:07

    Renata, Obrigada minha amiga.
    A união entre samba e religiosidade faz com que as religiões afro-brasileiras tornem-se conhecidas e deixem de ser estigmatizadas.

    Neste sentido, devemos agradecer a sensibilidade de Ierê Ferreira.

    Abraços,
    Érika

    Resposta

  4. Janaina Mendes
    ago 23, 2010 @ 01:59:00

    Parabéns Érika,é bom ler palavras de alguém que tem conhecimento acerca do que fala e que consegue expressar o conhecimento com a máxima clareza.
    O samba e a religiosidade afro-brasileira fazem há tempos parte de nossa cultura e quando bem representados por pessoas sensíveis,ficam ainda mais bonitos.

    Resposta

  5. Érika
    ago 25, 2010 @ 20:22:34

    Olá Janaina, obrigada pelas palavras ainda mais vindas de uma pessoa que gosta de música de qualidade.
    Religião e samba ambos contam a nossa história.

    Abraços, Érika

    Resposta

  6. Jassanan Ferreira
    ago 26, 2010 @ 22:02:15

    Parabéns pelo belo trabalho, que DEUS te abençoe na sua caminhada meu rei. Bjos.

    Resposta

  7. Sandra Martins Soares
    out 16, 2010 @ 02:31:00

    “Samba Identidade Nossa” tudo a ver com nossa ancestralidade.Encontrar escritos e composições de Ierê foi melhor ainda,a quem já tive o prazer de conhecer através de suas fotos belíssimas.Manifesto em que pude relembrar Candeia e outras personalidades do samba que já se foram,Tudo isso aliado ao Jongo,Candomblé.Samba+Religiosidade. Parabens a você Mestra Érika pela sensibilidade em seu trabalho que me emocionou bastante. Ierê,moço inteligente, versátil você ainda terá muitas conquistas.
    Grata pelo carinho.
    Olorum ilumine o caminho de vocês sempre.

    Resposta

  8. Jassanan Ferreira
    out 16, 2010 @ 13:05:53

    Gostei da letra Parabéns.

    Resposta

  9. Os números de 2010 « Samba Identidade Nossa
    jan 04, 2011 @ 04:36:34

  10. Flávia Ellen
    mar 12, 2011 @ 13:35:33

    Érika, é uma beleza esse relação que você fez.

    Inclusive, se tiver interesse, gostaria de entrar em contato com você, porque estou fazendo minha monografia tendo o samba como retrato.

    Seria interessante para meu trabalho!

    Parabéns novamente!

    Resposta

  11. Cris Penido
    maio 24, 2011 @ 23:02:57

    Boas falas e lindas fotos como sempre!

    Parabéns!

    bjs

    Resposta

  12. Paulinho Sacramento
    jul 27, 2011 @ 00:32:34

    Demais irmão , vamos em frente!

    Resposta

  13. Dorina
    ago 18, 2011 @ 15:57:54

    Amei Ierê vamos conversar um pouco no programa sobre este trabalho? Você tem meu telefone liga pra mim bjs sua fã

    Resposta

    • ierefoto
      ago 24, 2011 @ 22:12:54

      Oi Dorina também sou seu fã e será um grande prazer poder falar deste trabalho em seu programa.
      Te ligo.
      Beijos e sucesso sempre.

      Resposta

  14. Toto Carlos
    dez 13, 2011 @ 15:18:09

    O que ou como falar de Iere Ferreira ???
    O cara que ainda menino já pensava como gente grande!
    nada me surpreende em seu sucesso mano…
    com certeza isto era algo predestinado e eu como outros que conviveram contigo…
    e viram o início de tua trajetória,sabíamos que daria nisto.
    Meus parabéns sou seu Fã ! ! !

    Resposta

    • ierefoto
      dez 13, 2011 @ 16:57:00

      Toto meu irmão tudo que apresentamos aqui são fragmentos de sonhos, sonhados com o coletivo e para o coletivo! tenho muito orgulho de ter aprendido muito com você e com seus familiares que se tornaram minha família também, de ter compartilhado momentos únicos de muitas felicidades contigo irmão e ainda quero viver outros tantos momento pois nossa juventude se foi mais o espirito de garoto sonhador esse vive em nos!!!
      Obrigado por ser me amigo!!!
      Abraços e axé sempre!!!

      Resposta

  15. Rita
    maio 05, 2012 @ 23:29:14

    Letras lindas e inspiradoras!!! Que gostoso ler a alegria e a fonte do viver.

    Resposta

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