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Após uma semana de viagens, filmagens e entrevistas pelo Brasil, com personalidades para o documentário “Go Brazil go”, o cineasta americano Spike Lee, de 55 anos, disse surpreso com a primeira de suas constatações: a ausência de negros na mídia brasileira. Para o diretor, que planeja lançar seu filme antes da Copa do Mundo de 2014, os Estados Unidos estão 20 anos à frente do Brasil quando o assunto é acabar com o racismo.

Lee visitou o Centro Afrocarioca de Cinema, e também entrevistou o renomado Zózimo Bubul, Ator, diretor, produtor de cinema, idealizador e curador do Encontro de Cinema Negro Brasil África, Américas e Caribe. Zózimo possivelmente será um dos personagens do seu documentário.

Durante a entrevista com Zózimo, Spike Lee se mostrou muito surpreso ao saber que o filme “Orfeu Negro”, dirigido por Marcel Camus, em 1959, nunca havia passado nas telas do circuito de cinema no Brasil. Zózimo Bubúl só foi assistir o filme na “telona” quando estava exilado na Europa. Spike Lee também estranhou o fato de que no Brasil, que tem mais de 50% da população negra, ter apenas um ministro afrodescendente no Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto os Estados Unidos, com menos de 15% da população negra, conseguiram eleger um presidente, que está quase indo para o segundo mandato.

Ao chegar com sua equipe no Centro Afrocarioca, o cineasta surpreendeu a todos, iniciando as gravações desde a entrada. Na sala de cinema montou um sete de filmagem com uma luz densa, exclusiva para o entrevistado e para o cenário criado com os quadros que decoram o Centro. Com duas câmeras “poderosas” e uma super 8 mm, começou os trabalhos. Luzes, Câmeras, ação!

Zózimo, o entrevistado, como já era de se esperar, não poupou o sistema e foi logo falando do descaso com a saúde e a educação da população afrodescendente. E que esta parcela da sociedade precisa conhecer as suas origens Africanas, para então poder sentir orgulho da sua ancestralidade, pois a lei que obriga o ensino da história da África nas escolas brasileiras só foi aprovada recentemente, mais precisamente no ano de 2003. Zózimo falou também das cotas, dos donos desta terra “os povos das florestas” (índios), dos seus filmes e projetos.

Procurei observar ao Máximo a maneira que Spike Lee conduzia os trabalhos, como incorporava as respostas do Zózimo e como formulava novas perguntas a partir das respostas. Busquei no sete de filmagem um espaço onde pude fazer os registros de maneira discreta e sem perder um segundo si quer, deste momento histórico na minha vida e na minha carreira. Imaginem vocês que eu estava entre a maior referência do cinema negro no Brasil e o maior cineasta negro do mundo!

Ao terminar os trabalhos, Spike Lee e sua equipe confraternizaram com os convidados do Centro Afrocarioca de Cinema. Estavam presentes os atores Milton Gonçalves, Romeu Evaristo, o diretor Luiz Antonio Pilar, a atriz Iléa Ferraz, o fotógrafo de cinema Vantoen Pereira JR, entre outros. Mais uma vez o “cara” surpreendeu! Tirou fotos, fez piadas, comeu e bebeu e deu uma lição de integração e profissionalismo.

Shelton Jackson Lee nascido em Atlanta em 20 de março de 1957, mais conhecido como Spike Lee, é um cineasta escritor, produtor e ator. Entre os seus filmes se destacam: Malcom X(1992), Faça a Coisa Certa (1989), Mais e Melhores Bluss (1990) e Todos a Bordo (1996).

Também é um reconhecido documentarista e ensina cinema na Universidade de Nova Iorque. É considerado pela mídia especializada como um diretor polêmico e engajado nas questões sociais. Tenho a certeza de que Spike Lee e o documentário “GO Brasil go” vem para somar nas lutas e no desenvolvimento dos afrodescendentes do nosso país. Por isso fiz questão de dividir um pouco da experiência de ter presenciado este momento que considero histórico.

Texto e fotos: Ierê Ferreira

Revisão: Cândida Amorim

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