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Samba é coisa de trabalhador!

Samba Identidade Nossa nesta edição vem mostrar, porque que o samba, é coisa de trabalhador. E para isso entrevistamos o Grande Moacyr Luz, cantor, compositor, músico, escritor e um dos maiores defensores da nossa categoria.

Ierê Ferreira: Moacyr como você avalia esses quatro anos do samba do trabalhador?

Moacyr Luz: Nós estávamos conversando aqui agora, e são duas coisas diferentes. Acho que a minha avaliação é super positiva porque, eu acho que, nesse espaço de tempo, nós construímos uma tradição e conseguimos manter um nível de sambas que eu considero muito interessante. Nós aqui, tocamos Candeia, Arlindo Cruz, Paulinho da Viola, Almir Guineto Cartola e novos valores. Tá todo mundo ai! O que temos de músico com samba bom predomina aqui. Acho que desta forma, como construímos este leque, é que trouxemos todos os tipos de tendências musicais para o Samba do Trabalhador. E não têm sido fácil, é uma resistência mesmo, essa é uma palavra que aqui é muito usada. Porque nos vivemos um grande momento de euforia. Nossa roda de samba com duas mil pessoas aqui no Rena, e agora não esta lá essa coisa toda! Mas mesmo assim é um prazer muito grande tocar neste lugar. A outra coisa é que lançamos um CD, lançamos um DVD e principalmente formamos uma nova geração de pessoas que estão ai. Gabriel Cavalcante fez o samba da Ouvidor, o Vandinho tá fazendo as suas rodas de samba, o Luiz Augusto, enfim todo mundo foi se destacando individualmente. Foi se criando, um tipo de escola, pra essa garotada fazer este tipo de roda de samba. Se você olhar este período de quatro anos até agora o que aconteceu com essa rapaziada é muito interessante! Agente deslocou a atenção de uns artistas que estavam muito restritos a Lapa. Ou era ali ou era nada! E eles vieram acontecer no Andaraí!

I.F: Há algum tempo atrás fizemos uma matéria para nossa revista Agito Rio, que o título era: Lá onde o samba foi morar, falando aqui do Renascença, considerando que o samba já teve e tem outras moradias como por exemplo o Cacique de Ramos. Pensando por este aspecto está confirmado que o samba veio morar no Andaraí, mais precisamente aqui no Renascença?

M.L: Pois é, nós, quando percebemos que a coisa foi feita de forma espontânea e se sedimentou desta maneira, a ponto de termos um movimento voltado para o lado de cá, onde a gente cria uma roda de samba às duas horas da tarde numa segunda feira e traz TVs do mundo inteiro, jornais do mundo inteiro e rádios. Ouvir nosso disco tocar numa programação de radio a partir de uma coisa super intuitiva, super espontânea, eu acho que o samba veio morar aqui. Acho que o samba sempre morou aqui também, em Vila Isabel, Andaraí como sempre morou em Madureira, eu acho que o que é interessante é que estes jovens que estão tocando aqui tiveram uma janela para poder respirar música e viver de música! Da minha parte você havia comentado dos meus livros. Em 2005, eu participei e organizei o CD do Renascença, no mesmo ano eu fiz um disco de poemas chamado a Sedução Carioca do Poeta Brasileiro com o grupo Água de Moringa. Em 2006, lancei um livro chamado Manual de Sobrevivência nos Botequim mais Vagabundos pela editora SENAC, no mesmo ano, lancei pela Dek Discos, Moacir Luz Voz e Violão. Em 2007 ou 2008 não lembro agora, lancei o Sem Compromisso com Marçalzinho, além desse, lancei Botequim Que de Bêbado tem Dono e em 2009, o Batucando. No meio disso tudo ainda inventei uma roda de samba para as pessoas que lamentavam não poder vir aqui nas tarde de segunda-feira, demoramos dois anos para poder descobrir um espaço e lançamos, em dezembro de 2006, o Samba Luzia que virou o Samba da Laje e quase um ano depois o jornal O Globo disse que era o baixo Santos Dumont e virou outra festa, outro ponto de encontro para cidade, acho que tudo isso da um saldo muito bom.

I.F: Temos que admitir que você é trabalhador e militante da cultura e principalmente do samba porque isso tudo é uma produção muito extensa, para um tempo que é considerado curto para fazer arte e cultura. Constatamos que você tem produzido com muita sede. Em um dos seus discos tem uma música chamada Som de Prata, que a letra sugere que Pixinguinha tenha virado um Orixá, eu gostaria que você contasse a história desta música para os nossos leitores.

M.L: A letra é do Paulo Cezar Pinheiro, mas este samba, ele nasceu no dia nacional do samba, dois de dezembro. Eu estava sem saber aonde ir e vi, no café do teatro Rival, um cartaz do show do João Nogueira que estava saindo de um problema de saúde e chegou o Paulinho Pinheiro e falou: – não bicho, nós temos que assistir o João!  Entramos e sentamos no teatro, eu ele e Sérgio Cabral, nos três tomamos uma garrafa de whisky vendo o João cantar sem poder beber e agente tomando aquele copo de whisky lotado, lembramos que o Pixinguinha bebia whisky em copos longos e comentamos: se o Pixinguinha estivesse aqui teria orgulho do nosso copo! (Risos). Lembramos que o Pixinguinha morreu num sábado de carnaval, morreu dentro de uma igreja batizando mais uma criança e isso era tradição do samba, dos chorões de batizar muita gente e de repente ele virou a cabeça e morreu, morreu como um santo dentro de uma igreja e como ele era de Benguele, então falamos que ele morreu como um Orixá, virou um Orixá porque só quem é um morre dentro de uma igreja. Essa é a historia da música Som de Prata.

I.F: Essa é mais uma das histórias maravilhosas do samba! Queremos aproveitar para lhe dar os parabéns por estes quatro anos de trabalho a frente do Samba do Trabalhador e por ser este trabalhador que nos brinda com tanta arte e também agradecer por você esta ajudando a formar uma nova geração de sambistas com capacidade para se sustentar do samba e sustentar o samba! Parabéns.

M.L: Eu é quem agradeço.

Por isso, que afirmamos que o Samba é Identidade Nossa! E é coisa de trabalhador!

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