Entrevista publicada na Revista Agito Rio.

Por: Ierê Ferreira


Criado na vila da penha, este sambista de 29 anos começou sua trajetória musical tocando em barzinhos e cantando nos grupos, “forro na contramão e xaxados e perdidos”, e logo que se encontrou com o samba, ajudou a fundar os grupos Casuarina e Tempero Carioca.

O cantor músico e compositor Moyseis Marques que lançou seu primeiro CD pela Deckdisc em setembro de 2007, é quem vai nos contar um pouco desta trajetória.


Ierê.Ferreira: Como foi crescer na zona da Leopoldina, território de tantos sambistas, escolas de samba e do Cacique de Ramos e encontrar-se com o samba, só apos a sua adolescência?


Moyseis Marques: Isso faz parte do que o Ruy Castro chama de “establishment” musical. Minha cultura musical era a popularíssima, de rádio e TV, as mais populares. Quem teve sua adolescência na década de 80 e 90 lembra  que o que  tocava na rádio nessa época era o funk e rock brasileiro principalmente,misturado com os artistas de massa. De vez em quando, pintava um Zeca Pagodinho, um Fundo de Quintal, Beth, Jovelina, Leci Brandão, e os grupos de pagode, claro. Não tive artistas na família, portanto, nenhum incentivo por parte dos meus pais… é aquela coisa…- “meu filho: esquece essa coisa de artista, isso é pra filho de musico, filho de gente importante… vá estudar para ser doutor, engenheiro, militar… garanta seu “fixo”. pura proteção. Quando encontrei com o samba, de fato, foi paixão à primeira vista. Me identifiquei com o que diz respeito à humildade, ao espírito de união, de ajuda, aquela coisa do subúrbio de “é tudo nosso, sabe?” Se eu tenho um sanduíche, todo mundo vai comer. Agora o mais legal, tudo isso com a elegância e a dignidade que o samba merece.


I.F: Onde e quando o samba conquistou seu coração?

M.M: O samba conquistou meu coração quando comecei a me interessar por música mesmo. Faz uns dez anos, seguindo o fluxo natural de um jovem inquieto e curioso, destrinchando a obra dos artistas, lendo fichas técnicas e livros, reparei que todos os grandes artistas gravaram sambas. Falo de Caetano, Gil, Djavan, João Bosco, Chico Buarque, Tom Jobim, os primeiros que eu conheci. Todos esses artistas compuseram e beberam na fonte do nosso samba. Inevitável, sendo o samba a nossa maior expressão musical popular.Por aí, imaginando a pirâmide de cabeça pra baixo, você vai subindo, ramificando, ramificando… pronto! Lá está Zé Ketti, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Paulinho da Viola, Cartola foi um caminho sem volta. Me identifiquei e nunca mais parei de ir, freqüentar e ouvir. Hoje em dia, não passo uma semana sem ir a uma boa roda de samba. Vou ao Cacique, ao Candongueiro, ao Samba do Trabalhador, à Pedra do Sal, à Gamboa, ao Semente e, é claro, ao Carioca da Gema.


I.F: Segundo o escritor Ruy Castro, você é a prova de que o samba corre mesmo, que clandestinamente, nas veias do nosso povo. O que você diria sobre este comentário?

M.M: Quando comecei a cantar samba, mesmo sem ter sido criado no meio, apresentava certa intimidade com o assunto… certo swing, que chamou a atenção de algumas pessoas que me incentivaram… você leva jeito!-disseram elas. O povo brasileiro é um povo muito musical. Quase todo mundo batuca na mesa, canta afinado, bate palma no ritmo… são 500 anos de exploração convertidos em pura síncope, na veia… mistura de preto com branco e índio e escalas européias! Baden Powel é puro jazz, com candomblé. Eu não sei cantar, por exemplo, um hip hop, mas todo mundo sabe cantar um samba! Um pelo menos. “Tristeza”, “Aquarela Brasileira”, “O Samba da minha terra”, “Viver e não ter a vergonha de ser feliz” (esqueci o nome desse samba). Não é a toa que nosso samba é respeitado e conhecido no mundo todo. Acho que foi isso que ele quis dizer.


I.F: Nós, amantes do samba, adoramos as metáforas de Luiz Carlos da Vila que pinta um azul do céu se admirar e sabemos da admiração que este e outros grandes sambistas tem por você! Como é receber este carinho e apoio daqueles que você com certeza admira?


M.M: Ruim não é, né? Dá uma segurança, uma certeza de que você está fazendo a coisa certa. É um privilégio conviver com essa galera. Você aprende muito, a cada dia. Luiz Carlos me apresentou a muita gente… ele, o Paulo Figueiredo, o Marquinho China, antes de me conhecerem, chegava numa roda de samba e me olhavam torto, pelo fato de eu ser branco… babaquice! Preconceito às avessas. Acho que, ás vezes, as pessoas esquecem que somos oriundos da mistura. Minha mãe é mulata e mora na Mangueira, é da comunidade. quem não me conhece acha que sou filho de bacana… e daí?E mesmo se fosse! Mário Reis também era… Chico Buarque também. Francisco Alves era o maior “compositor” que existia, e alavancou a carreira do Ismael (Silva). Já vi preto cantar desafinado, não tem regra, tem é que respeitar as raízes e pisar no chão devagar. Isso, modéstia à parte, eu aprendi, com a força, os conselhos e o incentivo dos mestres, o que muito me honra.


I.F: Como foram escolhidas as musicas para o seu CD?


M.M: A princípio era um disco de um intérprete… queria que ficasse bem real, com o repertório que eu canto na noite. Obviamente as músicas menos usuais. Às vezes, acontece de você ir assistir um artista, gostar do trabalho e quando você compra o CD é outra história. Quis um repertório que soasse verdadeiro, tivesse a ver comigo, mostrasse esse meu lado da divisão rítmica que eu tanto curto e ao mesmo tempo mostrasse versatilidade. Passei pelo universo do samba, samba-canção, samba-choro, samba de terreiro, samba de breque, samba de gafieira, um samba tropicalista, partido alto, samba com sotaque nordestino. Faltou ainda, um samba de roda, um samba baiano… mas ainda virão outros discos, né? Depois quis acrescentar um pouco das coisas que escrevo em casa, porque pouca gente conhece meu lado de compositor. Acho que no próximo virão mais músicas minhas. Depois tem um outro problema, que é a ordem das faixas, rolou muito tempo no meu CD player na função “shuffle”, até eu ter as sacadas necessárias. Gostei do resultado final.


I.F: Qual foi a sua maior dificuldade na produção e gravação do CD?


M.M: Conciliar tempo, grana, músicos, estúdio, paciência, dedicação, alegria , esperança e voz.


I.F: A música Nome de Favela do Paulo César Pinheiro, gravada por você já é um grande sucesso! Como você esta lidando com isso?


M.M: Essa música foi uma sacação boa… é daquele disco “Lamento do Samba”, o último do Paulo César. Queria gravar tudo!  Achei que, apesar da estrutura simples e tradicional, o samba se revela bem atual e propício à situação que estamos vivendo. Também é um samba bom pra se cantar na roda. É de fácil entendimento, enfim, tinha tudo pra dar certo e tem uma curiosidade… tem levada de partido alto, em tom menor, o que é raro. Embora a estrutura não seja. Espero que o Paulinho Pinheiro tenha gostado. As pessoas estão gostando, fizemos até um vídeo clipe. uhu!


I.F: Moyseis, nós queremos agradecer pela sua tão nobre existência e talento, e desejar que tenhas sempre muito sucesso, e gostaríamos que você desse aos nossos leitores a dica de três CDs de samba que não podem faltar na estante de um sambista.


M.M: Lá vai: Tantinho da Mangueira, “Memórias em Verde e Rosa.” Luis Carlos da Vila, “Um cantar à vontade”, Cláudio Jorge,” coisa de chefe”, não tem como dar errado. Um abraço e obrigado!

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